sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

INTRODUÇÃO

Viagem do meu PAI através do Atlântico Sul, da Cidade do Cabo a Salvador da Bahia, começa A BORDO DO SEA ROSE STAR.
Comove-me ler esta descrição e há-de comover-me para sempre. Herdei dele o gosto pelo Mundo e a vontade de seguir os meus sonhos, assim como o fez nesta viagem.
E é assim que com o maior orgulho nos meus Pais vos envio este relato.

A BORDO DO SEA ROSE STAR


Depois dos primeiros dias agradáveis em CAPE TOWN com a sua paisagem deslumbrante, e a “peregrinação”, sentida com verdadeira emoção, ao CABO DA BOA ESPERANÇA, aqui com o nome de CAPE OF GOOD HOPE, envio este mail-reportagem para a família e para alguns amigos que o possam ler...
Estamos já no centro do Atlântico Sul que é tal como o Pacífico o outro oceano mítico, totalmente aberto para a ANTÁRTIDA, que o torna como um prolongamento da mesma exercendo a sua influência nas correntes frias ascendentes das quais a corrente de Benguela é um exemplo, e pelos ventos fortes existentes, bem como a temperatura da água do mar em pleno verão do hemisfério sul, que em Cape Town era de 12oC mantendo-se nos 14oC até à costa da NAMÍBIA – há até pinguins no Cabo da Boa Esperança - e agora que estamos a 1000 kilómetros de SANTA HELENA já é de 21,8oC.
Os dias a bordo não são de ócio. Somos 5 pessoas e todos temos 2-3 turnos de “quarto”, cada 24 horas, em que estamos sós assumindo o total controle da Navegação num navio muito automatizado, mas delicado e muito caro, com controle de rotas em função de ângulo e velocidade dos ventos, que neste momento já são os chamados alísios (trade winds em inglês), e com atenção rigorosa a eventuais rotas de colisão com outros navios; depois destas 2 horas dorme-se “como uma pedra”. Quanto ao resto temos uma cozinheira óptima, que não quer ninguém a cozinhar na cozinha dela …
Quanto a mim, tenho muitas saudades da minha mulher, dos meus filhos, do meu neto e da minha nora, mas procuro sublimar este sentimento, para não perder o momento enorme que estou vivendo. Sonhava fazer uma travessia num oceano mítico, e está a acontecer… É uma sensação fantástica, de uma alegria interior com vontade de “explodir”, que devo aos amigos RAFAEL DUDZIAK e GUSTAV STABERNACK, e á minha mulher e meus filhos, que me apoiaram e suportaram a “infra-estrutura”. Incluo no meu pensamento de gratidão o nome de um grande historiador da navegação portuguesa e grande marinheiro, que me aconselhou e forneceu a informação histórica necessária sobre o trajecto que ia ser percorrido – Comandante MALHÃO PEREIRA.
É também o orgulho de fazer uma travessia de um mar inóspito e solitário, que poucos fazem, mas eu tinha que o fazer… e estou a fazê-lo…
E é também uma espécie de herança para a nossa “estrelinha”. O céu tem estado sempre encoberto de dia e de noite, só houve 2 noites em que havia estrelas e nuvens, tentei encontrar a nossa estrelinha mas ela não estava ali…, estava com os pais… ou talvez com a avó…
Tenho tempo para ler, mas só trouxe o livro que o Alexandre me ofereceu, que devorei em 4-5 dias, agora estou a ler um livro em inglês que o Gustav me emprestou – A GUERRA DOS BOERS.

16 de Janeiro de 2008

ATLÂNTICO SUL


Dentro de 3-4 dias chegamos a SANTA HELENA donde falaremos por telefone.
No segundo dia da viagem pesquei 1 atum amarelo de 5 kilos que foi logo preparado, retirados só os lombos, frito 2 minutos de cada lado e comido ao jantar 3 horas depois, cru por dentro como o verdadeiro “suchi” que é feito com este peixe…..
P.S.: O RUI conquistou a simpatia de toda a tripulação.

18 de Janeiro de 2008

ATLÂNTICO SUL 2


Amanhã estaremos em SANTA HELENA. Desde que nos afastamos da corrente de Benguela, a partir da costa da NAMIBIA, as noites tornaram-se menos frescas, mais cálidas; temos tido noites mágicas... com a lua cheia a 1-2 dias de distância, o mar aparece com uma iluminação de festa, de tal modo que hoje depois do jantar o GUSTAV e o RUI dançavam no deck-solário ao som alto da música dos BEATLES,... acabei por fazer a minha perna...

20 de janeiro de 2008

SANTA HELENA


Largámos cerca das 12 horas de SANTA HELENA, uma ilha com algumas características topográficas da MADEIRA, que foi descoberta em 1502 por um português, o almirante JOAO DA NOVA, quando regressava da INDIA. Foi mantida em segredo durante 80 anos, pelo valor estratégico que representava para escala dos navios e repouso das suas tripulações; nada existe do pouco que os portugueses aqui deixaram, infelizmente... Demos uma volta de táxi pela ilha, que tem, vista do mar, um aspecto vulcânico e seco enquanto o interior tem um verde luxuriante como nos AÇORES. Mais do que a visita à casa onde Napoleão passou os últimos anos de vida, não sinto admiração por déspotas nem depois de mortos, impressionou-me o sentimento de solidariedade existente entre as pessoas, que levantam sempre o braço em sinal de cumprimento, quando se cruzam nas ruas ou nas estradas... A população é de origem africana, com um tom de pele idêntico à dos cabo verdianos e não ultrapassa os 5.000 habitantes. Afinal não há rede de telefone móvel em SANTA HELENA...
Navegamos rumo a SALVADOR, que está a 8 dias de distância; as condições de mar são boas, como de costume os ventos são instáveis e com ângulo não favorável ...

22 de Janeiro de 2008

ATLÂNTICO SUL 3


Navegamos no trópico Sul a caminho de SALVADOR. A temperatura da água do mar é de 23.6oC. À noite ultimamente volta a estar fresco e nublado, de dia o sol faz brilhar um mar de pequena vaga com alguma “carneirada”, a que eu costumo chamar de “mar de rosas”, acolhedor e de um azul lindo que só existe nas grandes profundidades.

23 de Janeiro de 2008

ATLÂNTICO SUL 4


Latitude 15o 38´S
O sol começa a estar abrasador; a temperatura da água do mar é de 24,8oC; a evaporação provocada por estas duas componentes traz um arrefecimento cálido no fim do dia. O céu aparece novamente estrelado; eu e o Rui procuramos identificar o “CRUZEIRO DO SUL”....
Vista da popa, a ponte de navegação, com a luz dos instrumentos ligada numa extensão de 4 metros parece “fantasia espacial”.
O barco no silêncio da imensidão do mar e da noite pertence a um mundo surreal...

24 de Janeiro de 2008

TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO


Verão do trópico; o sol continua abrasador.
Com o entardecer chega na vida de bordo o momento importante do dia, a hora do jantar, que antecede o início dos “quartos nocturnos” e representa o acto social desejado por todos. Enquanto o almoço é uma refeição ligeira, o jantar é um acto de “circunstância”, confeccionado e apresentado pela KATY, com tal requinte profissional que provoca sempre regozijo e espanto geral; a sua “arte” vai desde a preparação da carne, passando pelo “SUCHI” de atum amarelo, pescado por nós, até à própria sobremesa; o queijo português de AZEITÃO também empresta a sua marca gastronómica, e o bacalhau preparado pelo RUI, que para o efeito puxou dos seus galões..., foi uma surpresa agradável.
No final do jantar o entusiasmo é geral; é a hora de ouvir música clássica em alto volume ou até de dançar no “deck” ao som da música pop dos anos 70-80.

25 de janeiro de 2008

TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO 2


Continuamos pacientemente..., não há alternativa... a percorrer milhas de água, cuja temperatura neste momento é de 25,1oC; devemos chegar a SALVADOR por volta das 5 horas de sexta-feira, dia 1 de Fevereiro.
Entretanto a rotina continua, animada pelo jantar, que é sempre regado com 1 ou 2 garrafas de tinto ou branco, tanto faz... No meio da boa disposição, surge um mail da Joana, com uma grande... notícia...Os dois amigos quiseram participar no mail resposta, em que esvaziei em poucas palavras... a minha alegria; a boa disposição subiu alguns degraus, com certa emoção minha à mistura...

26 de Janeiro de 2008

TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO 3


Às 07:00 da manhã, estando de quarto, sou surpreendido com uma revoada de peixes voadores em voo rasante; quando fazem voo em altura caem no deck, como aconteceu há dias, coitadinhos...
Cada vez estamos pior de vento, continuamos com a vela grande + motor; torna-se monótono, mas o mais importante é chegar; neste momento, 15:37 hora local, a velocidade verdadeira do vento é de 3-4 nós, a temperatura da água do mar subiu para 25,5o C; é a calmaria...

27 de Janeiro de 2008

EQUADOR


Estamos na zona equatorial; continua a calmaria; já é difícil aguentar o sol; a temperatura da água do mar continua nos 25,5ºC; dormir de noite só de pijama sobre a pele.
Entretanto aproximamo-nos da costa brasileira; desde CAPE TOWN já atrasámos os relógios 3 vezes uma hora; como o trabalho é feito em turnos contínuos, de noite levantamo-nos e deitamo-nos 2 vezes, o que leva a funcionalidade do nosso corpo a adaptar-se com facilidade às horas de dormir e de refeições.
A mudança de hora corresponde à entrada no fuso horário seguinte, sendo adoptada a HORA LEGAL correspondente ao meridiano central do fuso.

28 de Janeiro de 2008

ATLÂNTICO SUL A RUMO DE SALVADOR DA BAHIA


A calmaria continua... a água do mar atingiu atingiu os
26.2ºC.
Não temos conseguido pescar, os dois animais que morderam o isco ultimamente acabaram por soltar-se, o que não foi desgosto para nós porque não tínhamos equipamento próprio para os içar para bordo.

29 de Janeiro de 2008

ATLÂNTICO SUL 5


Latitude: 13o 53´.8S Longitude: 32o36´.2W
Daqui por 48 horas estaremos em SALVADOR. Com a aproximação da chegada, lembra a família, como estará a minha estrelinha?
As condições de mar e tempo continuam sem alteração. A temperatura da água do mar já está nos 27.3 ºC ...
Às 12 horas atrasámos os relógios 1 hora, correspondente à hora do meridiano central do fuso seguinte para OESTE.

30 de Janeiro de 2008

APROXIMAÇÃO A SALVADOR


Finalmente temos vento de feição; desligámos o motor; deslizamos a 6.3 nós e sem ruídos mecânicos... Esperamos aportar a SALVADOR às 09:00 hora local de amanhã.

1 de Janeiro de 2008

BAHIA DE TODOS OS SANTOS - HENRIQUE MARTINS


Acabo de realizar uma grande ambição e sonho da minha vida – a travessia de um grande oceano – o Atlântico Sul.
O que recebi em troca do meu amor e carinho pelo mar foram conhecimentos às mãos cheias sobre a gesta de gerações de portugueses, que estamparam de maneira inigualável a sua força, sabedoria e capacidade de aventura, em terras longínquas nas margens deste grande rio-oceano.
Toda a investigação da costa ocidental africana, com os padrões de Bartolomeu Dias e Vasco da Gama no CABO DA BOA ESPERANÇA a assinalar o encontro de um mundo novo, na costa oriental do continente sul americano o colosso que fala português e guarda nas suas entranhas um dos maiores tesouros do planeta - a AMAZÓNIA.
O trajecto que percorremos nestes dias de sonho corresponde ao percurso histórico das caravelas e naus lusitanas na viagem de regresso do oriente, que muitos anos depois seria conhecido como “carreira da Índia”.
Ao viver este momento alto da minha vida, no meio do silêncio e relativa solidão, mas não nas condições de adversidade dos nossos antepassados, reencontrei o meu orgulho de ter crescido e vivido no país onde nasci.
Esta é a mensagem que quero deixar aos meus filhos e ao meu neto.
E é também por estes motivos que quero transmitir aos meus amigos que face ao que acabo de reportar, nanja de quaisquer complexos, o nosso lugar no mundo é estar voltados para o mar, sem voltar as costas à Europa; mas do mar vem o cheiro de maresia e o desafio permanente de aventura do ATLÂNTICO SUL , um oceano português.

1 de Janeiro de 2008

Fotografia do POLAR.